Entrevista com o escritor Márcio Souza

Entrevista com o escritor Márcio Souza

O escritor e cientista social amazonense Márcio Souza, 73 anos, estará sábado (02), às 19h, na 5ª Feira Nodestina do Livro (Fenelivro), promovida pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). Autor de importantes obras como Galvez, Imperador do Acre (1976) e Mad Maria (1980), o escritor, que também é dramaturgo, cineasta e jornalista, está terminando o 4º Volume da tetralogia Crônicas do Grão Pará e Rio Negro, que se intitulará DerrotaSimultaneamente, Márcio realiza pesquisas sobre a Força Expedicionária Brasileira (FEV) na Itália para escrever um romance sobre cinco jovens amazonenses que vão lutar contra o fascismo. Considerado um dos poucos conhecedores do Brasil profundo, ele lançará na Fenelivro seu mais recente título: A História da Amazônia – do Período Pré-Colombiano aos Desafios do Século XXI (Editora Record), em que faz uma síntese da chegada do homem à região até os tempos atuais. Considerado uma das maiores autoridades do Brasil na questão amazônica. Nesta entrevista ele faz duras críticas ao tratamento dado ao Estado pelos governos federais.

 

PERGUNTA – Quais os desafios históricos que não foram resolvidos e se agravam no século XXI?

MÁRCIO SOUZA – O tratamento colonial dado pelo Brasil à Amazônia. Por exemplo, a Amazônia tem mais campos apropriados para a pecuária que a Europa, que são usados desde o período colonial, sem precisar desmatar, mas Brasília continua incentivando a derrubada de árvores para gado e soja. O Amazonas, por exemplo, é um dos cinco Estados que remetem dinheiro ao governo federal e durante anos não recebe as verbas devidas ao Estado.

PERGUNTA – De que forma o que acontece na Amazônia impacta no restante do País?

MÁRCIO SOUZA – Um só exemplo: quando a floresta for destruída pela pecuária e os madeireiros, não se formarão mais chuvas para irrigar os campos do Brasil central e sudoeste.

PERGUNTA – Os brasileiros e os governos do Brasil conhecem a Amazônia?

MÁRCIO SOUZA – Não, para eles a Amazônia é pura natureza e área atrasada, Terra sem História.

PERGUNTA – Em relação às questões ambientais a imagem do Brasil no exterior nunca esteve tão comprometida. Nesse contexto a Cepe lança a 5ª edição da Feira Nordestina do Livro ressaltando a importância do tema Terra viva, compromisso de todos. Na sua visão qual seria o compromisso da cultura em geral e especialmente da literatura com o tema?

MÁRCIO SOUZA – O tema é instigante e atual. O tratamento dado ao meio ambiente é pura barbárie. A destruição do bioma amazônico é criminosa até mesmo pelos padrões mais capitalistas do mercado financeiro, pois produzirão um deserto árido onde poderia estar plantas que proporcionariam a cura de diversos males, inclusive o câncer. A descoberta da simbiose de uma planta com uma espécie de formiga na floresta chuvosa da Costa do Marfim, irmã africana da Amazônia, permitiu que a Indústria Farmacêutica americana sintetizasse um remédio que normaliza a arritmia cardíaca faturando bilhões de dólares por ano.

PERGUNTA – O senhor tem uma história forte de perseguição durante a ditadura militar. De alguma forma o cenário atual o faz recordar aquele período?

MÁRCIO SOUZA – Tenho muito receio que o Brasil volte a resvalar para uma ditadura. Embora não exista mais a Guerra Fria, os bolsonaristas andam vendo comunistas até debaixo da cama. Tenho também medo de um regime fundamentalista de corte cristão.

PERGUNTA – Seu último livro lançado recentemente é o mais completo registro sobre a Amazônia. Afinal, os governos e o brasileiro médio conhece a importância da Amazônia? Se não, qual a razão desse desconhecimento, dimensão territorial?

MÁRCIO SOUZA – Um dos motivos para escrever este livro, é que quando fui estudar na USP nos anos 60, descobri que não sabia nada sobre a minha terra. Decidi regressar viajar pelos rios, ouvir o povo do rio, os ribeirinhos, as etnias. Passei duas décadas fazendo isso e lendo livros e documentos. Até que no começo dos anos 80 o Arquivo Público do Pará foi restaurado e aberto, revelando um passado espantoso. A História do Grão Pará, uma colônia portuguesa com uma economia moderna, uma população mais educada que a do Brasil, que foi invadida pelo Império do Brasil e, entre 1823 e 1835 usaram piratas ingleses e mercenários alemães para trucidar 40% da população e reverter a região ao subdesenvolvimento. Foi a versão brasileira da Guerra da Secessão. Ao contrário dos Estados Unidos, aqui o Sul atrasado ganhou.

PERGUNTA – O senhor já visitou Recife e Olinda. Como é voltar neste momento em que vivemos o maior desastre do litoral nordestino de nossa história?

MÁRCIO SOUZA  Nós aqui da Amazônia temos muito respeito por Pernambuco, pela história do povo pernambucano, por Frei Caneca e pela Confederação do Equador. Sobre a Confederação do Equador, quando a notícia chegou no Grão Pará, o povo festejou nas ruas de Belém.

 

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