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Presente e passado se confrontam em romance de autoficção

Presente e passado se confrontam em romance de autoficção

Vencedor do V Prêmio Cepe Nacional de Literatura, A importância dos telhados, de Vanessa Molnar será lançado dia 9 de dezembro, durante o Circuito Cultural Digital de Pernambuco

Elle é uma professora recém-aposentada de 67 anos que narra seu cotidiano solitário, vendo a velhice passar e refletindo sobre a morte que parece prestes a chegar. O conflito com a passagem do tempo é a primeira questão com a qual o leitor e a leitora vão esbarrar na obra A importância dos telhados, da paulista Vanessa Molnar, vencedora do V Prêmio Cepe Nacional de Literatura, categoria Romance. Mas ao longo das 178 páginas do livro nos surpreendemos com acontecimentos e memórias revividas que aos poucos transformam a vida da protagonista e a nossa leitura. O que a princípio parece um romance pessimista ganha um sopro de otimismo ao longo da narrativa, transformando a realidade. O romance será lançado junto com os vencedores das categorias conto (Erros, errantes e afins, de Emir Rossoni) e poesia (As cartas de Maria, de Zulmira Alves Correia), no dia 9 de dezembro, às 19h, em uma live com participação do editor da Cepe, Diogo Guedes, durante a última etapa da edição 2020 do Circuito Cultural Digital de Pernambuco.

Passado e presente se confrontam e se completam no cotidiano de Elle e em suas recordações sobre temas como ditadura militar, tortura, tolerância religiosa, preconceito social; sobre o desprezo das elites e dos governos autoritários pelo papel do professor e pela educação; sobre a literatura. Assuntos que pareciam fazer parte do ontem, mas que voltaram a assombrar a protagonista, dentro do livro, e nós, leitores, aqui fora. Graduada em História e Mestre em Estudos Culturais pela USP, Vanessa utiliza o recurso da autoficção em seu romance para suprir a impossibilidade de representar o real. “Tem me chamado a atenção o fato de alguns críticos dizerem que existe uma volta ao realismo, principalmente na literatura feita por mulheres. Eu não sei se isso acontece,mas talvez esse livro seja uma tentativa de responder a isso, entre outras coisas”, reflete a autora. 

Buscando escrever sobre a ditadura militar no Brasil, Vanessa voltou ao passado de Elle, presa e torturada, para esclarecer o presente: o filho Ricardo, a amiga recém-falecida Ana, a adolescente Maram. “Há uma verdadeira guerra sendo travada pelo direito a um discurso vencedor que será usado para justificar determinadas opções políticas. Que está sendo usado. Mas para que esse discurso se imponha é preciso negar os fatos históricos que se opõem a ele, como o horror das Ditaduras, das torturas, do próprio Holocausto, e nós não podemos permitir que isso aconteça. Acho que é por isso que insisto tanto nesse assunto”, explica a autora.

Para as mulheres, lidar com a velhice é diferente do que para os homens, por causa do regime paternalista em que vivemos. “Acho que sempre podem acontecer coisas novas na vida das pessoas e que isso independe da idade, uma das coisas que eu quis mostrar foi que as mulheres mais velhas também têm uma vida, e creio que isso é importante, porque os brasileiros ainda são muito machistas e muitas mulheres ainda encaram a velhice como o fim da vida”. O feminismo, aliás, é um exercício de resistência que se mostra no próprio fazer literário de Vanessa. “Me assumir como uma escritora em um mundo que ainda é predominantemente machista, é uma posição política que decidi tomar”. 

Inspirada na escritora italiana Elena Ferrante, Vanessa, assim como Elle, ingressou na vida acadêmica vinda do subúrbio. De família de classe média, estudou em escola pública e seus pais não frequentaram a universidade, porém sempre a incentivaram a buscar conhecimento, algo que a elite brasileira, como Vanessa ressalta em seu livro, despreza. No seu romance, ela deixa transparecer o preconceito nas falas da professora. “Acho que esse desprezo nunca ficou tão evidente. Vemos um monte de pessoas de classe média se manifestarem contra as vacinas, contra o heliocentrismo, entre outras coisas”, avalia a autora.

A importância dos telhados é o primeiro romance de Vanessa, natural de Santo André, que teve um livro de contos, Crônicas de uma Tara Gentil (2008, Escrituras), além de outros textos ficcionais publicados em diversas antologias. “Sempre quis escrever um romance. Então fui pesquisar e vi que a Cepe estava com o edital de concursos de publicações aberto. Como se trata de uma editora grande e conceituada achei que era uma ótima oportunidade e, de fato, foi”. 

Trechos do livro:

A velhice é um buraco no tempo invertido que nos suga de qualquer forma e, além disso, é um problema contemporâneo concreto, com o qual ninguém gosta de lidar.

Corria um rumor de que estavam interrogando os homens primeiro, não sei, só me recordo que havia um cheiro ruim no ar, um cheiro de clausura misturado com abandono, um cheiro de falta de banho, parecido com o da morte, o que se confirmou quando a primeira de nós voltou da sessão de tortura e eu entendi que o medo é uma das armas mais poderosas que podem ser acionadas contra a humanidade. 

O que se dizia na época era que com a revolução tudo mudaria. Do dia para a noite, questões complexas como o machismo, a misoginia, o racismo ou o antissemitismo se dissolveriam, perderiam a razão da sua existência e o paraíso se instalaria na terra, como um inevitável milagre.

O Brasil me lembrava tortura e morte e, infelizmente, depois de um breve período de alívio, até hoje é assim. 

Peguei a laranja que achei mais bonita e examinei, com calma, a perfeição de sua casca. Uma ideia de mundo passou por mim em gestos lentos e tive a impressão de que ele era composto por um rebanho que marchava inconsciente por um caminho repleto de atalhos e de desvios, e eu soube que, apesar da aparente simplicidade, era na complexidade desses desvios, semelhantes às sementes internas que não podiam ser vistas sem se abrirem as frutas, que as coisas importantes aconteciam. 

Nossa memória age de uma forma estranha e faz isso com o intuito de nos manter em um falso estado de felicidade. A memória seletiva é uma defesa fundamental para a preservação da nossa espécie, mas não é sempre que temos a oportunidade de experimentarmos, na pele, essa teoria.

Serviço:

Lançamento dos vencedores do V Prêmio Cepe Nacional de Literatura

Quando: 9 de dezembro

Horário: 19h

Onde: Circuito Cultural Digital de Pernambuco (www.circuitoculturaldepernambuco.com.br), em live no canal do circuito no Youtube.

Preço: R$ 40 (livro impresso); R$ 16 (e-book)

Texto: Assessoria de Imprensa da Cepe

 

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